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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Possibilidades...


Talvez se eu fosse menos louca...
Se eu não fosse quem soca, desesperadamente, sem parar, um travesseiro branco.
Se eu seguisse em frente...
Se eu não fosse propícia a visualizar gente rolando do barranco...
Quem sabe você não chamasse a polícia...
Talvez se eu não tivesse um troço lá dentro da barriga que eu sinto que está dançando a dança da garrafa...
E que nunca se cansa, e que é uma girafa...
Se esse bicho imundo não subisse até o pescoço,
Quem sabe eu não estivesse no fundo do poço...
Talvez se o mundo desfocasse e só se visse a gente,
E todas a pessoas que sobrassem fossem meros figurantes.
S a vida decidisse mudar de roteirista, e o gênero trocasse de repente, num instante...
Quem sabe a gente podia ser protagonista...
Talvez...

Clarice Falcão.

(...) Se não fossem os danos, não seria eu... (...)
(...) Se não desse errado, não seria eu... (...)
(...) Você pode tentar por horas me deixar culpado, mas vai dar errado, já que foi o resto da vida inteira  que me fez assim... (...)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Be God.

Peguei - me pensando em uma conversa que há muito tive com alguns colegas...
Todos falavam a respeito do arrebatamento que viria para levar as pessoas boas para o céu.
Como sempre, fiquei alheia a conversa e, quando necessário, emitia algum comentário sem qualquer entusiasmo.
Falavam também a respeito de atitudes que tornavam as pessoas impuras e indignas da 'salvação'.
Cada um com seus conceitos. Cada um dizendo o que era imperdoável para Deus. Cada um assumindo o papel de Deus.
Eu continuei calada.
Não quero amar a um Deus que me permita condenar o outro e continue me amando com todo o ódio e repúdio que sinto ao condenar.
Não quero amar a um Deus ao qual tenha que temer primeiramente.
Eu quero amar ao universo e nele vê - Lo refletido.
Pois se Deus criou o amor, criou também as diversas formas de amar.
Quero ser livre objeto de Sua criação e não subjugar o meu semelhante.
Por que entre o homem e os céus existe muito mistério.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O nascer.


Nas redondezas da praça Maciel Pinheiro, no centro do Recife, via uma menina correndo.
Tinha olhar felinos, era muito faceira.
Corria, saltitava com um grande livro preso entre os pequenos braços.
Guiou - me até uma série de antigos casarios. 
Estendia a mão e quase podia sentir seu toque, mas ninguém a via.
A jovem Chaya circundou - me e foi em disparada em direção a praça. 
Virei - me e vi algo que reluzia como o  mais límpido e puro ouro.
Os casarões encaravam - me.
Fechei os olhos e senti Clarice, a Pernambucana Clarice.
O instinto me disse que ali havia morado.
Aproximei - me do sobrado cor - de - rosa, com marcas de reforma superando o tempo passado.
Tinhas janelas retangulares, altas, largas.
Por uns breves minutos pude ver novamente a figura da menina de cabelos curtos e levemente loiros e olhos verdes amendoados com o livro aberto, prostrado sobre os braços, fascinada.
Eu estava no reduto de minha alma, finalmente havia encontrado meu lugar, havia encontrado minha luz.
Cinco passos para trás, mais afastada do que interditava a porta, concentrei - me e pude recriar, ali, o refúgio judeu existente.
Caminhei ao encontro da estátua da mulher imponente, sempre com sua máquina de escrever no colo, sua vida transmitida por letras.
Não conseguia assimilar tudo, olhava - a e sentia vontade de me desfazer em prantos, de estar eternamente em sua forte presença.
As maçãs do rosto bem marcadas, a falta de atenção de todos ao redor.
Eu chorava. E como chorava.
Chorava por tê - la encontrado, e por ter demorado para chegar até aquele local.
Chorava pelo sentimento de pertencimento que me envolvia.
Chorava por que meu peito foi inundado pelo existir.
Puxei o ar com toda força pra dentro dos meus pulmões, na tentativa de descolá - los para que a vida me tomasse.
E respirei. E nasci.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Faça sim.


Não faça isso comigo, menino.
Me olha nos olhos, cativa e depois vai embora.
Não faça isso comigo, menino.
Me chama de moça, me adoça e me enamora.
Não faça isso comigo, menino.
Me prende em seus braços, me beija e desvenda meus mistérios.
Mergulha em meu ser, me faz crer nas coisas mais belas.
Não faça isso comigo, menino.
Me apaixonei. Só sei que foi assim.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Dark clouds.

Acontece que estou pesada demais para ficar em silêncio; Pesada demais para escrever.
Nada, nada nessa vida compara - se a frustração de decepcionar as pessoas que você ama, mesmo que o resultado dependa de uma série de fatores, combinações.
Acima de tudo quando o resultado depende muito de você.
E o que está por vir?
E os risos amargos de decepção de quem apostava as fichas em você? As apostas sempre são altas...
E o que eu perdi? O que eu os fiz perder?
A vida tem que seguir, essa é a única coisa da qual consigo me recordar... Eles me disseram isso em algum momento, mas eu bloqueei.
Meu peito enche - se de angústia quando penso neles e nos tiros que dispararam em vão por mim.
Eu só queria pedir desculpas, mas não tenho forças para isso.
Eu só queria dizer que sinto muito e que faria as coisas da melhor maneira possível, se pudesse.
É árduo combater as lágrimas, a dor e a frustração, mas elas estão descritas nas regras como consequências quase obrigatórias.
Não há o que ser feito...
Infelizmente, não posso voltar esse capítulo para tentar, novamente, entender como o jogo funciona. Já participo dele há alguns anos...
#Status da UPE: Tente outra vez...

domingo, 16 de dezembro de 2012

E é assim...


E é assim... Nossas mãos entrelaçam - se, nossos olhos perdem - se na imensidão de olhar pro outro...
Seu braço me abraça, meus dedos te bagunçam... E é assim...

"Estranho seria se eu não me apaixonasse por você...
O sal viria doce para os novos lábios.
Colombo procurou as Índias, mas a terra avistou em você.
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário.
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul.
Estranho pensar que o bairro das laranjeiras satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador.
Aperto o 12 que é o seu andar...
Não vejo a hora de te reencontrar pra continuar aquela conversa que não terminamos ontem,
Ficou pra hoje...
Estranho, mas já me sinto como um velho amigo seu...
Seu All Star azul combina com o meu preto de cano alto.
Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas pra sua voz parece exato.
Estranho é gostar tanto do seu All Star azul.
Estranho é pensar que o bairro das laranjeiras satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador.
Aperto o 12 que era o seu andar...
Não vejo a hora de te reencontrar e continuar aquela conversa que não terminamos ontem...
Ficou pras laranjeiras, satisfeito sorri quando chego ali e entro no elevador.
Aperto o 12 que era o seu andar.
Não vejo a hora de te reencontrar e continuarmos aquela conversa que não terminamos ontem,
Ficou pra hoje...

Nando Reis
All Star

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O que todos já sabem...

Quando penso em felicidade, penso no riso e na sensação de acalento que preenche meu coração, como naquele dia que mesmo sem um tostão no bolso, eu olhei as nuvens e aquilo me preencheu completamente. Ou então da primeira vez que pus meus pés em solo carioca e algo me tomou, como uma lembrança boa, um conforto, uma paz interna.
E não é por que eu a encontrei que desde então ela não me abandonou. Longe disso.
A felicidade não é plena, ninguém consegue viver só sorrindo, sem nenhum problema, com o coração organizado e sadio o tempo todo.
E cá entre nós, viver sem problemas às vezes entedia.
A felicidade é fruto da conquista diária, de conseguir superar cada obstáculo e poder fechar os olhos aliviados, lembrando que o ciclo encerrou - se (de uma boa ou má maneira, mas encerrou - se).
Porque em grande parte das vezes, quando as coisas acabam de um jeito que não gostaríamos que acontecesse, ficamos magoados e machucados internamente, e com o desenrolar de tudo, que nos leva para uma situação de maior conforto, não percebemos que o sofrimento que passamos lá atrás foi necessário para o resultado final.
A vida nem sempre respeita margens.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Já sei que as flores de plástico não vivem...


As meninas recebem buquês nas mais diversas ocasiões.
Elas sempre estão lá, presentes, cumprindo o seu papel de encher os olhos alheios de lagrimas.
Vermelhas, imponentes.
Seguindo seu destino de rosa.
Não me agradam.
Sempre voluptuosas, cheias de lasciva, me ruborizam só de olhar.
Os meus amores não são assim, de pétalas escarlate.
Prefiro a longevidade longitudinal presente nos lírios.
Esses sim, delicados como só, apagam as mágoas das flores libidinosas deixaram.
Lírios são acariciadores de alma, de coração, de amor interno, amor fraterno, amor almático.

sábado, 1 de setembro de 2012

Para um setembro mais azul.


Que seja leve e azul. 
Que tenha estrelas no manto céu.
Que aconchegue as lágrimas em meus olhos para que eles não transbordem.
Que me traga as flores de uma primavera colorida.
Que setembro leve os amargos sabores que agosto deixou...


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

100 vezes Nelson - Parte III

Nesse momento ficou claro que o problema era o 'nome' do autor. Sua novela seguinte, "Sonho de amor", em 1964, seu nome aparece, mas como uma adaptação de "Tronco de Ipê", de José de Alencar. Sua última novela foi "O desconhecido".
Após ser recusada por muitas atrizes, "Toda nudez será castigada" estréia em 21 de junho de 1965 e é um grande sucesso. Os artistas aplaudidos de pé, os ingressos são disputados. Fica em cartaz por seis meses e depois sai em excussão pelo Brasil. Em três anos a peça parra pelo Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, até que é proibida em Natal - RN.
Vai para a TV Globo em 1966. No programa Noite de Gala, apresentava o quadro A cabra vadia, onde fazia entrevistas.
É chamado por Lacerda, onde é informado da criação da editora Nova Fronteira. Lacerda pede - lhe um livro e entrega - lhe um cheque de dois milhões de cruzeiros. Ele escreveu "O casamento". Quando Lacerda leu o livro, atordoou - se. Era um carnaval se incestos e perversões às vésperas de um casamento. O livro publicado pela editora Eldorado vende cerca de 8.000 exemplares nas duas primeiras semanas de Setembro de 1966, ficando empatado com "Dona flor e seus dois maridos", de Jorge Amado. É nessa época que seu irmão Mário Filho falece, o que o impede de fazer a divulgação de seu livro por um tempo. Quando reanimou - se, o livro teve sua venda proibida pelo Ministro da Justiça. A venda só volta a ser liberada em Fevereiro de 1967.
Para o Correio da Manhã escreve as suas "Memórias" que tem suas estréia no dia 18 de fevereiro de 1967 em grande estilo. É um grande êxito.
Álbum de família  que estava interditada desde 1946 só é liberada 21 anos depois, em julho de 1967, quando é encenada e, apesar do carrossel de incestos, é aplaudida de pé.
Em O Globo volta a publicar "À sobra das chuteiras imortais" e "As confissões" (já que não podia usar Memórias). A primeira "Confissão" foi publicada em 04 de dezembro de 1967.
Em 1970, aos 57 anos luta para tirar da prisão alguns amigos que acabaram lá por conta do regime ditatorial. Já cansado e sentindo - se sem espaço, por conta das enfermeiras em sua casa que cuidam de sua filha (que no parto sofreu por falta de oxigenação e acabou com paralisia cerebral), resolve separar - se de Lúcia, o que ocorre sem traumas.
Logo em seguida vai morar com Maria Helena, que era 35 anos mais nova que ele.
Em 1972, seu filho Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. É apanhado no mesmo ano. Anteriormente Nelson consegue a permissão para que ele saia do país com o então presidente, Médici. O rapaz não aceita tal privilégio. Por todo seu prestígio com os militares, o autor sempre foi muito procurado para ajudar pessoas que se viam em apuros com o regime. De 1969 a 1973 ele teve participação na localização, libertação e fuga de diversos prisioneiros acusados de crimes políticos. Após a prisão do filho, começa a batalha para encontrá - lo e mante - lo vivo, pois a tortura estava desenfreada.
Nelson escreve "Anti - Nelson Rodrigues" no fim de 1973. Em 1974, a peça tinha boa aceitação do público. Ao fazer alguns exames, é levado às pressas para São Paulo e faz uma cirurgia por conta de um aneurisma na aorta. Ao todo são duas intervenções, quase morreu. Retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para a casa e passam a viver juntos novamente.
Escreveu sua última peça, "A serpente" em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar uma greve de fome, com a finalidade de tornar a anistia ampla e irrestrita. No dia 23 de agosto, dia de aniversário do autor, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão para assistir ao nascimento da filha. No dia 16 de outubro sai a liberdade condicional, mas o filho não pode ver o pai, que se encontrava inconsciente no Hospital pró - cardíaco.
Nelson Rodrigues faleceu na manhã de 21 de dezembro de 1980, um domingo. No fim daquela tarde ele faria treze pontos na loteria esportiva, em uma aposta conjunta com seu irmão Augusto e com os amigos de O Globo. Dois meses depois, Elza cumpre seu pedido, de, ainda em vida, gravar seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só"


"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura.
Nunca fui outra coisa.
Nasci menino, hei de morrer menino.
E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica ficcionista.
Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico"


Fontes: 


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

100 vezes Nelson - Parte II

Em 1949 Nelson segue para o "Diário da noite", abandona o pseudônimo feminino Suzana Flag e parte para Myrna, agora respondendo cartas de leitoras.
Estréia Dorotéia em 07 de março de 1950. Com medo da censura, não assina o texto. A platéia dividida fica ao final, com a metade onde estavam os convidados aplaudindo efusivamente e a outra parte que sai em silêncio. A peça fica em cartaz por 13 dias.
No mesmo ano sai dos Diários Associados e fica aguardando por convites de outros jornais. No ano seguinte vai para a Última hora e "A vida como ela é...". Em junho estréia uma nova peça, "Valsa n° 6", que fica 4 meses em cartaz e torna - se outra decepção para o autor.
Nelson recebe o convite de escrever uma coluna diária sobre um fato real, com o título de "Atire a primeira pedra", mas o autor sugere "A vida como ela é...". Sugestão aceita. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relança Suzana Flag em "O homem proibido".
A famosa frase "Toda mulher gosta de apanhar. Todas não, só as normais" Surge a partir de um caso em sua vizinhança, onde um homem cansado de tanta humilhação por parte da esposa, no meio da rua, deu -lhe uma sova cinto. Quanto mais ele batia, mais o incentivavam a bater. O espanto foi a mulher, que prostrou - se aos pés do homem aos beijos, e a partir de então, passou a desfilar de braços dados ao seu lado, toda orgulhosa.
Em 08 de julho de 1953 entra em cartaz "A falecida". Chamada de tragédia carioca, era na verdade uma comédia que foi escrita em apenas 26 dias. Lançou também na mesma época o último folhetim de Suzana Flag, "Flan".
"Senhora dos afogados"  sobe aos palcos no Rio, em 1954. Mais uma vez a platéia divide - se. Parte grita "Gênio", e outros, aos berros, "Tarado". Nelson reagem, e grita do tablado: "Burros! Burros!"
"Perdoa - me por me traíres" também tem parte censurada e sofre cortes. Trás uma surpresa na estréia: Nelson interpreta Raul. Mais uma vez as vaias e aplausos tomaram conta do mesmo espaço, e ele não se faz de rogado, rebatendo: "Burros! Zebus!". De repente, um tiro! Um vereador em questão saca uma arma e dá um tiro para amedrontar alguém que o chama de palhaço. O tumulto instaura - se. No dia seguinte, a peça é interditada de vez.
Em 13 de setembro do mesmo ano é a vez de "Viúva, porém honesta". Especula - se que nela o autor tentava atingir aos críticos da sua obra anterior.
Dercy Gonçalves estréia Dorotéia em São Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson não gostava dos 'cacos' que a atriz introduziu no texto.
A próxima peça é "Os sete gatinhos" em 1958. Apesar de satirizar o presidente da época, Juscelino Kubitschek, Nelson vai até ele pedir um emprego. Consegue o cargo de tesoureiro de um instituto de aposentadorias e pensões. É reprovado em um exame de visão. Pede, então, a vaga para sua esposa. Juscelino queria agradar a Mário Filho e a nomeia.
Após cirurgia de risco para a retirada da vesícula, fica três meses sem publicar sua coluna. A manchete esportiva  fica fora do ar de Novembro de 1958 a Março de 1959.
De agosto de 1959 a Fevereiro de 1960, o público acompanha a história de Engraçadinha e sua família em "Asfalto selvagem". Foram publicados dois livros, intitulados "Engraçadinha - Seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito" e "Engraçadinha - Depois dos trinta".
"Boca de ouro" surge novamente da junção de seus fatos cotidianos com a realidade da época, por conta de um motorista de ônibus que gabava - se por ter todos os dentes de ouro juntamente com o bicheiro do submundo carioca, Arlindo Pimenta.
Como todas as demais, a peça também sofre com a censura. É um fracasso em São Paulo. No Rio, com a troca dos atores que estrelavam o papel principal, foi um grande sucesso.
Em 1960 entrega "Um beijo no asfalto", que estava há um mês e meio em cartaz quando Jânio Quadros sai da presidência. Percorre o Brasil por cerca de 7 meses e provoca a saída de Nelson da Última Hora, pelas referências pouco positivas à imagem do jornal. Volta para  O diário da noite  com "A vida como ela é..."  e dez meses depois parte para O Globo em uma coluna esportiva.
Separa - se de Elza dois anos após conhecer Lúcia Cruz Lima. No almoço de despedida, a sua ex - esposa tenta suicidar - se.
Estreou "Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária." que ficou por 4 meses em cartaz. Só não se conforma pelo amigo Otto não ter ido assistir ao espetáculo.
Escreveu para Walter Clarck a primeira novela Brasileira, "A morte sem espelho", que ,apesar de grande elenco, não obteve sucesso por conta do horário, o das 23:30 hrs. Posteriormente passou para às 22:00 hrs. De nada adiantou. Foi convidado a encerrá - la rapidamente.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O sofrimento.


100 vezes Nelson - Parte I

100 anos sem ter envelhecido - 100 anos de Nelson Rodrigues no último 23 de Agosto. Dia que marca o centenário do Shakespeare brasileiro: um grande leitor da alma humana.
Com uma extensa obra que falou de amor, futebol, política, paixão, fidelidade, infidelidade... e também um grande profeta de grandes transformações no Brasil.
O que Nelson Rodrigues faria se estivesse vivo hoje?
Essa é a pergunta que fica.
Como viveria Nelson no mundo 'atual'? Como encararia as mudanças ocorridas desde 1980, ano de sua morte?
Nascido na cidade do Recife - PE (meu conterrâneo!) em 23 de agosto de 1912. Muda - se para o Rio de Janeiro ainda na infância, com apenas 4 anos de idade.
Passou a frequentar a escola aos sete anos, e desenvolveu a leitura de forma muito rápida. Em 1920, algo marcou a infância do escritor: um concurso de redação, onde todos deveriam escrever sobre um tema livre e a melhor seria lida em voz alta, perante toda a classe. A professora quase vai ao chão com a composição do autor, que relatava a história de um adultério. "O marido chega em casa, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando a janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha - se e pede perdão. Apesar de todo espanto causado ao corpo docente, não teriam como não reconhecer o talento do jovem.  Houve um "empate" e então a outra redação foi lida.
Presenciava muitas discussões dos pais causadas pelos ciúmes que o genitor sentia da mãe. Uma fuga para ele, foram os livros. No início, lia romances leves, mais logo foi partindo para leituras mais 'pesadas'.Os autores eram bem distintos, mas no fundo, os livros falavam de uma coisa só: A morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.
O autor sentia falta do pai, muito envolvido com a política e o jornalismo. O irmão de Nelson, Mário filho, nessa época começa sua consolidação como repórter esportivo, e posteriormente é homenageado ao ter seu nome escolhido para ser o nome oficial do estádio do Maracanã.
Na segunda série do ginásio, em 1926, foi expulso do colégio batista, na Tijuca, por rebeldia. Contestava muito os professores, principalmente de português e história.
À medida que entrava na adolescência, ficava cada vez mais melancólico, mais depressivo, sentado pelos cantos e dizendo: "Eu sou triste!"
Nelson inicia sua carreira jornalística em 19 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, ganhando 30 mil réis por mês. Tinha treze anos e meio, era muito alto e magro. Embora filho do patrão, não teve regalias e ainda comprou calças compridas para impor respeito. O jovem rapaz impressiona os colegas de trabalho pelo talento de dramatizar pequenos acontecimentos. Especializou - se em descrever pactos de morte entre namorados, tão comuns naquela época.
No dia 27 de Dezembro de 1929, vê seu irmão Roberto Rodrigues atender à mulher que havia estampado a primeira página do jornal, em um caso de desquite, e levar um tiro na altura do estômago. Nelson vê e ouve tudo aquilo. A primeira cena de violência brutal em sua frente. O seu irmão faleceu dois dias após o incidente.
Um profundo luto abateu - se sobre a família. E o escritor chorava desconsolado.
pouco mais de dois meses após a tragédia, é a vez do pai de Nelson, que sofre uma trombose cerebral . Morre dias depois,  de encefalite e hemorragia. Diante tantas desgraças em família, torna - se insuportável ali viver e mudam - se para outra casa.
A família Rodrigues tem seu segundo jornal fechado após a revolução de 1930, por apoiar Júlio Prestes e fazer críticas aos rebeldes da época. Pouco tempo depois, Mário, Nelson e Joffre vão trabalhar n"O Globo", sob o comando de Roberto Marinho.
Diagnosticado com tuberculose em 1934, segue para Campos do Jordão para tratamento. Foi a primeira da série de seis internações. A tuberculose leva seu irmão Joffre em 1936, aos 21 anos de idade.
Casa - se em 1940. No mesmo ano perde 30% da visão em sequela da tuberculose.
Por dificuldades financeiras, começa a escrever teatro. Sua primeira peça, "A mulher sem pecado"  entra em cena após muita insistência e luta. A repercussão do público foi quase nenhuma, mas lhe rendeu bons elogios de críticos da época.
Em Janeiro de 1943, escreveu "Vestido de noiva"  e enviou - a aos amigos. Um dos que receberam foi Manuel Bandeira. Apesar das inúmeras críticas positivas, não conseguia encená -la. Um diretor polonês agrada - se e resolve investir. Após oito meses de ensaios diários, finalmente no dia da estréia, o teatro está lotado, e ao fim, os atores agradecem ao público em meio a uma enxurrada de aplausos.Nelson não é visto por ninguém. Estava no camarote, lutando contra a dor de uma úlcera. Justifica - se dizendo que sentiu - se "um marginal da própria glória".
Em 1944 recebe a proposta de tornar - se diretor de Detetive e de O Guri. Aceita. Nessa mesma época escreve dois folhetins: Suzana Flag e Meu destino é pecar. Devido ao sucesso, logo após o lançamento de duas edições especiais do mesmo, lança Escravas do amor.
Nelson escreve "Álbum de família", reprovada pela censura em 1946. As opiniões dividiram - se a respeito do rumo da peça. Acabou que mesmo por proibida, sendo liberada apenas em 1965 e chegando aos palcos pela primeira vez em 1967.
"Anjo Negro" foi outro sucesso de publicação, mas não menos polêmico. Estreou em 1948 e permitiu a Nelson a aquisição de sua casa própria. "Senhora dos afogados"  também é proibida em 1948. Com duas peças interditadas, acaba por escrever "Dorotéia", considerada por muitos sua obra prima teatral.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Assim são...


A metamorfose ou os insetos interiores ou o processo
Composição: Fernando Anitelli
O teatro mágico

"Notas de um observador:
Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
De qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos variadas raízes radicais,
Ramificações das célula rainha.
Desprovidos de asas, nem voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam - se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
Repousam - se no lodo.
Lactobacilos vomitados sonhando espermatozoides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega - se de maestra -los.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
Das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa: A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Nãos reproduzem. São inférteis, infiéis, infertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas, 
Cortam os troncos,
Urinam nos rios, e nas somas dos desagravos greves e desapegos,
Esquecem - se de si.
Pontuam - se.
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam  - se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: O que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada, o que parece bem visto e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam - se no holocausto da subserviência.
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo,
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro,
Caem.
Desacordam todos os dias.
Não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam. Não alma. Já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.